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16 Sep 2020

Ensino Híbrido e a mudança de larga escala nas escolas

Autor Convidado: Luciano Sathler
Ensino Híbrido e a mudança de larga escala nas escolas

A crise da aprendizagem é um fenômeno mundial diagnosticado há alguns anos e que tende a piorar com o impacto da pandemia.  No Brasil é uma situação ainda mais grave pois há um desalinhamento maior nos resultados alcançados com a escolarização se comparados com outras nações com renda per capita e Índice de Desenvolvimento Humano - IDH semelhantes aos nossos.

Embora mais crianças e adolescentes do que nunca estejam matriculados nas escolas, para muitos, escolaridade não redunda na aprendizagem esperada. Uma certeza é que fazer mais do mesmo não vai gerar os resultados necessários diante das urgências postas. É preciso promover uma mudança de larga escala nas escolas, com a adoção de novos procedimentos, dispositivos, metodologias, o uso pedagógico intensivo de tecnologia, alterações na gestão e melhorias na arquitetura dos espaços escolares.

Estima-se que, em 2016, mais de 600 milhões1 de crianças e adolescentes em todo o mundo não atingiam a proficiência mínima nos níveis de leitura e matemática. Para destacar a crise global de aprendizagem, o Banco Mundial introduziu o conceito de ‘Pobreza de Aprendizagem’ - a incapacidade de ler e entender um texto simples aos 10 anos. Estima-se que 53% das crianças em países de baixa e média renda não consegue ler com proficiência aos 10 anos.

A quase universalização do acesso à escola é uma das grandes conquistas globais dos últimos 50 anos. Mas, passar pela escola sem aprender habilidades fundamentais e completar os ciclos esperados como um analfabeto funcional é uma tragédia em um mundo que se transforma rapidamente sob os impactos da globalização e da automação. A economia digital embute o risco de marginalizar os que não puderem desenvolver as competências adequadas, com elevado potencial de sofrerem os efeitos do desemprego estrutural e da maior concentração de renda.

Para milhões de crianças e jovens, esse insucesso em aprender significa um futuro no qual serão incapazes de encontrar um emprego ou trabalho produtivo, exercerem a cidadania ou moldar um futuro melhor para si, suas famílias e suas comunidades.

Ainda há problemas com a desigualdade de financiamento, com menos recursos sendo destinados às famílias empobrecidas que mais necessitam, algo que se espera mitigar no Brasil com o novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - Fundeb. Segurança alimentar, condições sanitárias e infraestrutura adequada são desafios não solucionados em muitas escolas pelo país.

Há necessidade de uma mudança de larga escala nas escolas brasileiras, para alinhar a oferta educacional com o perfil dos estudantes da Geração Internet, as demandas da sociedade e os fundamentos da Sociedade da Informação.

A sala de aula é um microcosmo do mundo exterior, onde as crianças aprendem seus valores, atitudes, habilidades e conhecimentos. Essa experiência de sala de aula pode ser transformadora e, portanto, é o lugar de maior oportunidade para superar o problema da qualidade. Extensas pesquisas internacionais2 recentes sugerem algumas estratégias de baixo custo que podem ser adotadas para alcançar um aprendizado mais significativo, conforme demonstra a figura 1.

Figura 1

A adoção do ensino híbrido é parte estratégica dessa mudança, ora emergencial diante dos desafios trazidos pela necessidade de retornar as aulas e demais atividades presenciais com segurança para todos.

O ensino híbrido é um programa formal de ensino em que o estudante tem parte da aprendizagem elaborada a partir de conteúdo, interações e mediações online.  O aluno tem alguma flexibilidade quanto ao tempo, local, ritmo de estudos e sobre as trilhas de aprendizagem a serem cursadas. Parte das atividades é realizada sincronamente na escola ou em outro espaço, sob a supervisão de um professor.

O ensino híbrido tem o potencial de aumentar a flexibilidade das escolas para atenderem alunos e professores que deverão voltar a frequentar os espaços físicos em dias e horários alternados. Pode reduzir as necessidades de infraestrutura, oferece alternativas economicamente sustentáveis para desenvolver programas de recuperação e a reorganização do calendário escolar.

A personalização das trilhas de aprendizagem a serem superadas pelos estudantes que apresentarem alguma dificuldade é mais viável com essa abordagem. Há vários tipos de ensino híbrido, que podem ser praticados em momentos alternados com a mesma turma, a depender dos objetivos de aprendizagem pretendidos e o perfil dos estudantes, conforme demonstra a figura 2.

Imagem nº 2

Portanto, é fundamental que as instituições educacionais incluam em seus planos de contingência para prevenção, para o monitoramento e para o controle da transmissão de COVID-19 estratégias para implementação do ensino híbrido.

Já na realização de avaliações diagnósticas, esse planejamento deve se fazer presente na elaboração dos programas de atividades recursivas, com foco em habilidades e competências, para que se garanta a recuperação das aprendizagens e o monitoramento do processo pedagógico de maneira economicamente sustentável e com boa qualidade.

O ensino híbrido precisa considerar aspectos variados para sua boa implementação, tais como políticas de atribuição de horas-aula, infraestrutura tecnológica, sistemas de controle acadêmico, capacitação de todos os envolvidos, ambiente virtual de aprendizagem e metodologias ativas que vão servir para mudar o paradigma do ‘ensino’ para o da ‘aprendizagem’ e da autonomia.

O objetivo de personalizar a aprendizagem deve ser intrínseco à implementação do ensino híbrido, pois está claro que as abordagens do tipo "tamanho único" para o conhecimento e a organização escolar são mal adaptadas às necessidades dos indivíduos e à Sociedade da Informação.

Essa ideia emergente é de que os sistemas capazes de atingir padrões universalmente elevados são aqueles que podem personalizar o programa de aprendizagem e progressão oferecido às necessidades e motivações de cada aluno.

  • UNICEF. Addressing the learning crisis: an urgent need to better finance education for the poorest children. Nova York: Unicef, 2020.
  • UNESCO. The Global learning crisis: why every child deserves a quality education. Paris: Unesco, 2013.

 

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