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13 Aug 2020

O Ensino Híbrido que temos pela frente

Autora Convidada: Lilian Bacicch
O Ensino Híbrido que temos pela frente

“A única maneira de prever a educação do futuro é começando a construir uma nova educação hoje” (Alan Kay, computer scientist)

A citação que abre este texto traz uma reflexão sobre as escolhas a serem feitas no retorno às aulas presenciais em que parte dos estudantes estará fisicamente nas escolas e parte deles presentes em um ambiente virtual, aprendendo remotamente.

Há diferentes escolhas a serem feitas e todas elas oferecem pistas do futuro que se pretende construir em uma instituição, ou na educação como um todo. Vamos refletir sobre isso?

Quando o híbrido é apenas o online com o presencial

Nesse formato, as aulas no espaço físico da escola e aquelas que acontecem em casa são as mesmas. Ou seja, o professor que está em sala de aula expõe o conteúdo, alunos que estão em casa e na escola acompanham o mesmo conteúdo e têm idealmente a mesma aula, independente do ambiente em que estão. Essa forma de unir presencial e remoto considera o professor no centro do processo, o conteúdo que é exposto e ele é o foco. A  mesma oferta é feita para todos. A aula ocorre de um pra muitos, considera que todos aprendem no mesmo ritmo e imagina-se que, ao apresentar conteúdos de forma igual a todos, obtém-se o mesmo resultado. Como interagir nesse formato? Será mais difícil e tomará muito tempo, além das dificuldades de conexão, que nem sempre é a melhor, pode-se chegar a um ponto em que todos que estão na sala de aula física ouvem a aula, em silêncio, para não atrapalhar a transmissão para quem está em casa. Quem está em casa tenta acompanhar a exposição da aula, mesmo que lidando emocionalmente com o fato de não estar em contato com aqueles que estão na sala de aula, e sem poder interromper a explicação. Retomando a citação que abre este texto, o futuro que se constrói é aquele que se baseia em um passado que considera o professor como detentor dos conhecimentos a serem transmitidos para alunos que, como tábulas rasas, terão a oportunidade de receber, ao mesmo tempo, a mesma “instrução”. Em muitas situações, é esse tipo de experiência que vem sendo apresentada como “ensino híbrido”, com a definição apoiada no senso comum, em que o híbrido é somente a mistura de presencial com online.

 

Quando o híbrido considera o potencial do online para uma melhor experiência presencial

Nesse formato, o momento online oferece a possibilidade de aprendizagem dos estudantes em diferentes tempos e ritmos, com foco no desenvolvimento de habilidades essenciais, mas oferecendo oportunidades para os estudantes irem além do que é proposto. Projetos ampliam a relação dos estudantes com os conhecimentos e possibilitam a construção em grupos, o desenvolvimento do pensamento crítico, científico e criativo, a aproximação com a cultura digital como caminho para que se aprenda mais e melhor, entre outras possibilidades. Os momentos presenciais, então, são momentos de relação com o humano, com outras pessoas, de forma “desconectada”. Nesses momentos, os estudantes podem viver aquilo que não tiveram a oportunidade de fazer no primeiro semestre: a presença física, a troca de ideias sem ter que ligar a câmera e “desmutar” o microfone, a retomada das relações humanas, respeitados todos os cuidados sanitários, as habilidades socioemocionais. Seminários socráticos, instrução entre pares, resolução de problemas, aprendizagem baseada em perguntas, entre outros modelos podem ser utilizados nos momentos presenciais, além da valorização de uma construção coletiva, mediada, para valorização a construção de conhecimentos e habilidades que serão essenciais para este ano. Essa é a definição de “ensino híbrido” que mais se apoia nas pesquisas de implementação do blended learning que fez parte da pesquisa que realizei no doutorado. É uma abordagem que considera que o online e o presencial se complementam, em que o melhor do online e o melhor do presencial oferecem oportunidades de personalização da aprendizagem.

 

Quais são os desafios para o híbrido?

Sem dúvida, trata-se de uma necessidade de mudança de cultura da comunidade escolar como um todo: gestores, professores, estudantes e famílias. Há uma falsa ideia de que a mesma carga horária que foi combinada no início do ano letivo tenha que ser entregue para os estudantes, independente da sobrecarga de tela ou do stress que isso possa ocasionar. Além de conscientizar as famílias, há o desafio da formação dos professores, que já se reinventaram no primeiro semestre, substituindo uma forma de lecionar por outra e que, agora, precisam caminhar em sua curva de aprendizagem para adaptar novos modelos às suas expectativas e necessidades, considerando as expectativas e as necessidades dos estudantes e de suas famílias. Pode parecer, para algumas pessoas, que apoiar-se na exposição de conteúdos facilitará o trabalho docente, mas talvez o stress seja ainda maior, além da constatação de que o impacto nas aprendizagens pode não ser o que se espera. Repensar a avaliação é um outro desafio, pois sabemos o quanto ela indica os resultados do processo e se não for considerada como um elemento fundamental para identificar os avanços, corremos o risco de utilizar formas de medidas que não se relacionam com o processo a ser medido, como se utilizássemos quilogramas para medir distâncias…

As instituições que têm conseguido mostrar outros formatos para  engajar os alunos com as aprendizagens essenciais e com as produções que impactam no desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e valores, estão participando da construção desse futuro, mesmo que elas avancem a passos bem menores, não devem retornar a um modelo essencialmente expositivo que não converse com as perspectivas de futuro que pretendemos desenhar em nossas escolas.

 

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