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13 Aug 2020

O que ninguém vai ensinar para você quando você crescer.

Autora convidada: Dra Betina von Staa
O que ninguém vai ensinar para você quando você crescer.
O que ninguém vai ensinar para você quando você crescer.

Betina Von Staa

Betina é consultora para o desenvolvimento de práticas educacionais inovadoras, voltadas para as demandas de um mundo em franca transformação. Doutora em Linguística Aplicada, é autora de materiais didáticos sobre criatividade e inovação, letramento digital para atividades extracurriculares. A coleção English And More, da qual foi co-autora foi aprovada no PNLD. Responsável pela vinda da D2L e RoboGarden para o Brasil.

Com a digitalização de todas as esferas de atuação da humanidade, algumas habilidades de manuseio de tecnologia serão consideradas tão básicas, mas tão básicas, que nenhum patrão vai oferecer treinamento para ensiná-las. Os colegas talvez ajudem fazendo cara feia, e quem não souber realizar a tarefa, vai ficar com aquela cara de que não tem o “perfil” para estar ali.

Também é pouco provável que, num futuro próximo, existam funcionários em empresas cuja única função seja operar a tecnologia para os outros – o funcionário “da tecnologia” que liga e desliga computadores, projetores, ou que prepara apresentações para os outros. Além disso, com o empreendedorismo em alta, quem for empreender, certamente não vai poder contar com assistentes para resolver tudo o que uma empresa faz por meio da tecnologia – desde a criação do site até o controle e atualização da planilha de finanças.

Vejamos algumas das habilidades que muito em breve serão consideradas tão comuns como ler, escrever, fazer contas simples de cabeça ou digitar (e olha que muitos de nós conhecemos pessoas que escreviam a mão e pediam para alguém digitar):

  • compartilhar telas em reunião de videoconferência;
  • editar arquivos conjuntamente, de forma remota;           
  • compartilhar vídeos pela nuvem;
  • elaborar questionários digitais;
  • inserir fórmulas ou criar gráficos em planilhas;
  • conectar o computador ao projetor ou à TV por cabo ou sinal;
  • criar sites;
  • participar de feiras online;
  • habilitar e-mail no celular;
  • consultar informações que não sabe – sobre qualquer assunto;
  • descobrir como funciona um aplicativo novo – qualquer aplicativo;
  • consultar gráficos de acesso à suas redes sociais;
  • comportar-se adequadamente em redes sociais, com plena consciência de que tudo o que se faz ali é público;
  • e muito mais - que ainda nem conhecemos.

O que a escola tem a ver com isso?

Se o uso de tecnologia está sendo considerado cada vez mais natural – ou essencial – em todas as atividades da vida social e do mundo do trabalho, a escola precisa ajudar seus alunos a desenvolverem essas habilidades de forma natural.

Como se ensina a usar tecnologia com naturalidade?

Não adianta ensinar a usar o software X ou Y, visto que, quando as crianças e jovens de hoje chegarem ao mercado de trabalho, esses softwares terão desaparecido ou estarão com funcionamento totalmente diferente.

O que precisamos fazer é dar acesso a muitas tecnologias diferentes, e solicitar produtos tecnológicos por parte dos alunos, permitindo que eles mesmos descubram como a tecnologia funciona. Só assim desenvolverão a habilidade de identificar rapidamente para que serve uma tecnologia – qualquer – e como ela funciona.  Vale também incentivar que os alunos explorem funcionalidades avançadas dos aplicativos que usam livremente, talvez mediante desafios.

Como incluir tudo isso no currículo?

Mais uma vez, não adianta separar uma aula semanal para “destrinchar tecnologias”. “Aprender como funcionam softwares” também não é muito relevante. O que faz sentido é simplesmente permitir que os alunos usem tecnologia em suas rotinas escolares. (E pensar que tantas escolas, municípios, estados e países se orgulhavam até recentemente de proibir o uso do celular nas escolas!)

O professor de história pode solicitar que os alunos gravem um vídeo e compartilhem pela nuvem; o professor de português pode solicitar que escrevam um conto colaborativo em arquivo único e o submetam em formato digital – e pode dar feedback com marcas de revisão que os alunos aceitam, ou não; o professor de matemática pode organizar uma videoconferência com alguém que usa conhecimentos matemáticos avançados em seu cotidiano, mesmo que essa pessoa more em outro país. Se o conferencista não souber português, vale testar os produtos de tradução automática e avaliar a sua serventia.

A escola também pode estabelecer que os trabalhos sejam entregues em formato digital rotineiramente, e pode fazer exigências específicas de formatação dos documentos, com uso de corretor ortográfico, entre outros recursos, para estimular um pouco de conhecimento de tecnologia por parte dos alunos.

O que fazer com as escolas e alunos que não têm recursos tecnológicos?

Infelizmente, a pandemia nos revelou que a falta de acesso a recursos tecnológicos e a falta de conhecimento sobre como usá-los promove um nível de exclusão social que parecia inimaginável nos idos de 2019. Portanto, se quisermos promover equidade e chances minimamente semelhantes no mercado de trabalho para todos os alunos, eles precisarão ter acesso suficiente a tecnologia durante a sua escolarização para não chegarem no mercado com aquela cara de que “não tem perfil”.  Também, infelizmente, sabemos que quem “não tem perfil”, não consegue a vaga, não consegue a promoção, mas essa história vem depois dos anos passados na escola...

Em resumo, é necessário considerar o acesso regular a recursos tecnológicos uma necessidade básica, que não só evita exclusão, como promove inclusão de todos os cidadãos.

Quem é responsável para que tudo isso aconteça na escola?

O gestor. Passamos muito tempo acreditando que o problema da subutilização de tecnologias na escola era a “resistência do professor”. No entanto, a pandemia nos mostrou que, uma vez diante da necessidade de usar tecnologia, os professores aprenderam muito rapidamente o que precisavam para fazer frente à emergência. Sendo assim, é papel do gestor reservar recursos para investir em tecnologia. É papel do gestor estimular que os professores usem essas tecnologias com regularidade. É papel do gestor deixar claro que fazer atividades diferentes da aula expositiva também vale como “aula”. É papel do gestor incentivar que os professores também façam as suas descobertas por conta própria. E é papel do gestor se orgulhar da produção e da autonomia dos seus alunos.

Se isso tudo for difícil de realizar porque os professores estão sobrecarregados e têm de aprender muito de uma só vez, ou porque não têm hora-atividade suficiente ou porque a escola não prevê nenhum momento de trabalho colaborativo entre professores para resolver problemas e inovar, também é papel do gestor contratar suporte para os professores, identificar talentos tecnológicos entre os docentes, criar horários de encontros e trocas de experiências. Tudo isso pode ser feito, com organização e planejamento.

O que não podemos fazer é continuar formando para o século XIX em pleno século XXI e ficarmos surpresos com uma tremenda inequidade 20 anos depois.

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