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"Docência é um trabalho em equipe", afirma Claudia Costin

08 Mar 2018 by: Redação Bett Educar

Ex-diretora de educação do Banco Mundial, professora universitária e membro do Conselho da Universidade de São Paulo (USP), Claudia Costin será palestrante do Fórum de Gestores da Bett Educar 2018, falando sobre como o ensino médio pode ser uma ponte da educação básica para o ensino superior. Para ela, a figura do professor solitário em sala de aula tem que ser deixada no passado. Uma instituição de ensino deve ser como uma orquestra, com professores bem afinados regidos por um diretor em constante formação. Veja a seguir a entrevista que ela deu ao blog da Bett Educar.

Bett Blog - Palestrante Claudia Costin

Bett Blog: Fala-se muitos da formação em trabalho para os professores, mas pouco para os gestores. Eles também precisam de formação continuada?

Claudia Costin: Todo profissional precisa de educação continuada. Vivemos em tempos incertos, de extinção de postos de trabalho por causa, sobretudo, da inteligência artificial. Tem um estudo da Universidade de Oxford que estima o fim de 2 bilhões de postos de trabalho até 2030. Todos os setores estão em intensa transformação, mas o tipo de formação que oferecemos hoje nas escolas e faculdade ainda é muito centrada na era industrial de produção em massa. Preparamos para realizar tarefas, mas deveríamos nos focar em preparar trabalhar coletivamente e ensinar a pensar.

BB: Como essa mudança impacta na escola?

CC: Isso significa que o professor, que recebe uma formação inicial inadequada, tem que se desenvolver para a sua própria prática e também para responder às demandas da nova sociedade. A docência é um trabalho em equipe e o gestor é como o maestro de uma orquestra. Se o gestor não tem uma formação que garanta um bom direcionamento dos professores, ele vai reger a música errada. Ele tem de garantir que todos estejam afinados e escolher a música certa.

BB: Quais os possíveis caminhos para a formação de bons gestores?

CC: Temos que contar com cursos, com certificações a partir do desempenho profissional e estudos colaborativos. A lei brasileira que estabelece um terço do tempo do professor seja para atividades de preparação é acertada. Os professores têm que trabalhar e estudar juntos, têm de acompanhar as aulas dos colega, como é comum em muitos países. O diretor deve fazer isso também, tanto para dar um feedback à equipe, como para aprender. Faz parte da formação do diretor visitar outras escolas e acompanhar seus próprios professores. Deve receber tutorias de diretores mais experientes e dar tutorias aos mais novos. Com isso não estou desqualificando os cursos, porque eles cumprem uma finalidade ao afastar do ambiente de trabalha e apresentar outras técnicas, por exemplo. Mas a reflexão sobre a prática é essencial.

BB: Sua palestra no Fórum de Gestores vai tratar do ensino médio. Ele é mesmo nosso grande problema?

CC: O ensino médio tem que ser repensado profundamente, mas ele depende das etapas anteriores para melhorar. Os déficits vão se acumulando a partir do 3o. ano do fundamental, pois muitas crianças saem sem estarem alfabetizadas. É um processo que leva a termos 73% dos alunos de 9o. ano com desempenho inadequado em leitura. Mas nosso ensino médio agrega novas dificuldades ao ter 13 disciplinas e apenas 4 horas de aulas, com o almoço incluído nessas 4 horas.

BB: Um modelo não funciona…

CC: Dos 30 melhores países no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), todos têm entre 6 e 9 horas de aulas e de 6 a 9 disciplinas. Nosso formato leva a uma carga horário muito pequena para cada assunto, que resulta numa fragmentação dos saberes. Precisamos de tempo para ensinar a pensar, de tempo para atividades que sejam mais envolventes, de tempo para trabalhar coletivamente.

BB: Como deveria ser essa uma ponte entre a educação básica e a superior, da qual trata sua palestra?

CC: O ensino médio tem que fazer o estudante ser o protagonista da sua aprendizagem, ou seja, que ele se considere um portador de sonhos e futuro. O que ele está aprendendo na escola deve ser funcional para esse seu futuro. Ele tem que se sentir responsável por sua vida e, dentro dela, por seus estudos. A universidade deveria ser uma opção, mas não a única. Para que ele faça escolhas com mais chances de êxito, ele precisa se enxergar no exercício profissional da carreira que optar. Também precisa sair com algumas competências básicas já desenvolvidas.

BB: Quais são elas?

CC: Capacidade de ler, interpretar e extrair informações de textos, tanto explícitas quanto implícitas. Mesmo um engenheiro tem que ler manuais - e sem essa competência leitora não vai conseguir. A outra é o raciocínio matemático, que também é base de todas as áreas. Até um sociólogo precisa olhar para estatística durante uma pesquisa. Mas esse raciocínio a gente não vai desenvolver se ficar passando uma fórmula para repetir 40 vezes apenas mudando os algarismos. Precisa ainda de uma mente investigativa bem desenvolvida e repertório cultural básico. Esses quatro pontos são chave não para o sucesso no vestibular, mas para o sucesso na vida universitária.

BB: Qual é o papel do ensino superior para uma boa transição entre as etapas?

CC: Do ponto de vista do ensino superior, é necessário fazer no primeiro ano um nivelamento dos alunos que chegam. Na Romênia, país que têm problemas semelhantes aos nosso com os alunos do primeiro ano da faculdade, existe um programa que fortalece essas quatro competências básicas que citei. E mesmo na universidade Yale, uma das mais reconhecidas do mundo, no primeiro ano todos os alunos, não importa de qual área, têm de ler obras clássicas da literatura mundial, como forma de enriquecer a bagagem cultural.

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